quarta-feira, 25 de novembro de 2009

R-E-F-O-R-M-A


O banheiro da casa da minha senhoura está em reforma. Mais uma vez: R-E-F-O-R-M-A. Essa palavra agora me inspira pânico.

Hoje, a reforma ganhou um tom inusitado. O pedreiro resolveu fazer um glory hole. Entre o banheiro e a sala. O problema é que não estava em nossos planos ter um glory hole na sala (ou no banheiro). Há limites.

#reforma = mau humor.

p.s.: em tempo: tese arrastando correntes em volta de mim, crises e mais crises. Por isso, a ausência no blog. Pretendo retomar o ritmo quando essa nuvem negra que me sobrevoa for embora.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

IGUAL A VOCÊ




Foi lançada na 2a. feira, 16/11, em Brasília, a campanha da ONU Igual a você. É uma série de vídeos - a maioria com o mesmo texto, mas personagens diferentes, - direcionados a combater o preconceito e o estigma e promover os direitos de gays, lésbicas, pessoas vivendo com HIV, população negra, profissionais do sexo, refugiados, transexuais e travestis e usuários de drogas. Ainda há um vídeo para combater o preconceito na escola, contra crianças e jovens.

Achei bacana. Estará disponível para passar na TV. Será que passa?

Acima, vocês podem ver o vídeo que tem a participação do meu amigo Paulo Giacomini. Parabéns ao Paulo por ter participado solidariamente da campanha! Não sei se é porque já convivi bastante com o Paulo, mas foi o vídeo que mais me tocou. Não gostei muito do vídeo sobre usuários de drogas. As imagens, do meu ponto de vista, foram mal escolhidas. Não ajudaram a humanizar muito as pessoas e mostra quase mais substâncias que gente.

Os vídeos podem ser vistos aqui.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

DO COMEÇO AO FIM PELA ÚLTIMA VEZ



Ontem finalmente consegui assistir ao filme Do começo ao fim, na abertura do festival mixbrasil. Estavam presentes o diretor do filme, os atores, um pessoal da produção e a simpaticíssima Júlia Lemmertz.

Não tenho muito a acrescentar à crítica que foi feita pelos queridos Thiago, Tony e Cris e o assunto já está batido, mas não resisto a dar meus palpites. Fiquei um tanto decepcionada. Vale pela linda fotografia, pelos bons atores. Pelo esforço em filmar algo diferente. E pelas imagens perfeitas daqueles corpos masculinos, com todos os músculos a que se tem direito. As imagens trazem uma erotização do corpo masculino que foi muito delicadamente conduzida.

Dois pontos:

* os amigos blogueiros não mencionaram, mas o que é aquela mulher sem noção que aparece no meio da história! Olha, mas nem gostando muito de mulher! Os lugares-comum sobre mulheres no roteiro me incomodaram um pouco.

* o filme é mais bacana no início, com as crianças. Depois, a história sobre aquela relação indefinida e intrigante dos irmãos se transforma... num filme sobre um casal gay. Mas um casal gay tão chato como aqueles das últimas novelas das oito. Nenhum conflito. Um amor tão autoreferente o tempo todo que chega a doer. Se fosse uma história verossímel, iria sair do cinema pensando: 'ateus me livrem de um amor assim!'. O mundo se resume aos dois.

Prefiro a minha história de amor não tão perfeita: nela, posso ser mãe, irmã, filha, amante, esposa e muitas outras coisas - não nessa ordem. E ainda, de quebra, há um mundo em volta para se viver.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

BAILÃO - O FILME


Em outra oportunidade, comentei aqui que o cineasta Marcelo Caetano estava à procura de homens gays mais velhos que estivessem a fim de participar de um filme que ele estava realizando.

A novidade é que o filme está pronto! É um curta de 17 min, finalizado em 35 mm, que se chama Bailão. Segundo a sinopse, trata-se da "memória de uma geração visitada por seus personagens. O cenário é o centro de São Paulo; o enredo, a urgência da vida. E o Bailão o ponto de convergência dessas histórias".

Estréia agora, em novembro, no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Eu, que estou super a fim de assistir - mesmo porque tenho amigos que participaram do filme, atrás e na frente das câmeras -, perguntei ao Marcelo Caetano no Facebook quando o filme vai para São Paulo e outros lugares. Ele disse que no próximo semestre vão começar a viajar com o filme. É ficar de olho! E parabéns pro Marcelo!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

DESCONFORTO E PRECONCEITO


A placa indicava: Dra. Fulana - ginecologia e obstetrícia. Entrei na antesala, dei os documentos para a recepcionista e sentei. Consultório vazio. Penso: 'bom, a parte mais chata já passou. Só estou retornando, essa médica foi tranquila em relação à minha orientação sexual e está tudo bem com a minha saúde'. A-ham.

Uma gestante e uma senhora dividiam o sofá ao lado. Falam dos maridos, porque um deles não deixa a moça trabalhar. A outra diz que ela deveria era se inscrever em "A Fazenda". Daí, pronto! O que segue:

Moça [bonita, gordinha, cabelo escovado, gestante, com um vestidinho que fazia os seios saltarem para fora e competirem com o barrigão]: sabia que vai ter duas sapatão ness'A Fazenda?

Senhora [gordinha, baixinha, de legging, bolsa a tiracolo, cabelo curtinho]: ah é? Duas sapatonas?

Moça: é, imagina! Minha tia é. 6 filhos e agora deu pra ser sapatão. Eu falo pra ela: 'isso é safadeza, é sem-vergonhice! Com 6 filhos! Que exemplo vai dar pra esses filhos!' . Falo mesmo, na cara. [riem fartamente]

Senhora: eu acho, assim, quando a pessoa é doente, é doente. Você já vê a tendência desde pequeno. Tenho um sobrinho assim, assumiu com 16 anos, mas desde pequeno a gente já via que não ia dar certo aquilo.

Moça: aí, sim, agora minha tia é safadeza! Sempre gostou de homem, vai querer mulher agora! [olha para a recepcionista]

Recepcionista: não dá pra acreditar, né?

Senhora: é, sim. E essas sapatonas são agressivas, são violentas. Eu tinha uma amiga no serviço, um dia ela foi cumprimentar a gente, a sapatona me deu uma olhada, que achei que ia vir pra cima de mim. Não sei, acha que é homem! Fiquei morrendo de medo. [#recalque]

Moça: e elas usa umas coisas, uns acessórios, na intimidade, sabia? Se é pra usar aquilo por que não fica logo com homem?

Senhora: não dá pra entender! Sem-vergonhice, isso.

Eu: ...

***

Tudo bem, fiquei olhando com cara de indignada e não participei do clima de deboche. Não rir já é alguma coisa. Mas não consegui falar nada. Simplemente não sabia o que fazer. Constrangedor. Por que que a gente é assim? Acho que estou mais chateada comigo do que com o obscurantismo dessas criaturas.

p.s.: na imagem, Morning Sun, de Edward Hopper.

domingo, 8 de novembro de 2009

A UNIBAN E O AVESSO DA JUSTIÇA



Quando escrevi sobre o caso da moça da Uniban, lamentei que rapazes e moças daquela instituição, bem como professores e seguranças, tenham respondido de forma única à questão: apontar uma culpada.

Posso adicionar mais um à lista: agora, a universidade também fecha os olhos para qualquer possibilidade de discussão e debate sobre direitos, feminismo, ética, ou que tais, e resolve... apontar uma única culpada. Sendo assim, expulsaram a moça da Uniban, e lá mantiveram os pobres alunos que, em ação mui honrada, saíram em "defesa coletiva do ambiente escolar".

Essa decisão não se justificaria em nenhum lugar, em nenhum nível de ensino. Se fosse uma escola de ensino médio, já seria vergonhoso. Numa universidade, onde se pretende que haja um maior grau de autonomia entre corpo discente e docente e que se construa lugares para o debate, isso é mais do que vergonhoso. Onde deveria haver possibilidade de pensar diferente, fomentar o debate intelectual e aliar o exercício da política ao da reflexão crítica, vemos a reprodução de uma lógica machista, burra e autoritária. E injusta.

p.s.: imagem de felix.albo, obra de mujeres creando.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

UM CLIQUE CONTRA A HOMOFOBIA

Que tal se nossos blogs todos divulgassem a enquete do Senado?

Já vi em alguns. O Tony disse que é discutível colocar os direitos de uma minoria à mercê da votação da maioria. Concordo, como pedir para fazer um plebiscito sobre a legalização do aborto ou da maconha. Derrota certa.

Nesse caso, penso que a criminalização da homofobia é um tema mais palatável e vale a gente brigar para que cada vez mais pessoas sejam a favor da lei. O que impede a lei não é a maioria da opinião pública, creio eu, mas sim a bancada evangélica e as negociações esdrúxulas que se faz entre nossos parlamentares. Não creio que a rejeição pública seja tão grande - como acontece, provavelmente, com a lei de união civil para homossexuais.

Mesmo que para com LGBT, é difícil defender a discriminação e a violência. O que os malditos conservadores evangélicos - não são todos os evangélicos - estão fazendo de sacana é tentar passar a falsa mensagem de que a lei é uma "mordaça", que vai coibir opiniões ou a desaprovação da homossexualidade. Mentira. A lei criminaliza a discriminação, pura e simplesmente. As pessoas poderão continuar fazendo suas pregações e comentários estúpidos.

De todo modo, a enquete tem sua importância, mas não é decisiva em relação à lei. Votar é mais uma questão de demonstrarmos força e influência. Alguma, que seja.

Votem lá no site da agência senado: na barra lateral direita da página, embaixo. Ah, neste momento, estamos com "ligeira" desvantagem : 58% x 42%.

Seu voto foi computado com sucesso!

Você é favorável à aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que torna crime o preconceito contra homossexuais?

  • Sim - 42%

  • Não - 58%

Total de Votos: 526812



Update:
estranhei um pouco o número grande de votos, mas agora com essa notícia, estou mais desconfiada. Será que é furada? Na dúvida, votei e postei.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

LÉVI-STRAUSS (1908-2009)

Do livro Saudades do Brasil

Faleceu no último dia 31 de outubro, a poucas semanas de completar 101 anos, o antropólogo Claude Lévi-Strauss, um dos maiores intelectuais do nosso tempo. A notícia veio a público hoje.



Com sincero pesar.

Sobre Lévi-Strauss: Le Monde, Wikipedia, Folha de S. Paulo, Estadão.

DO FIM PRO COMEÇO E DE NOVO


Sinto não poder ir à première do filme Do começo ao fim. Normalmente, me encho logo quando o hype é demais e perco o interesse pelo filme. Dessa vez, o interesse tem se sustentado. Em razão da escrita da minha tese, tenho me deparado ainda, eventualmente, com leituras próximas ao tema. Ontem, por exemplo, li o excelente artigo de Carlos Figari, chamado "No ventre do pai: desejos e práticas de incesto consentido", que está no livro Prazeres Dissidentes, em que também publiquei um artigo.

Olhando para seus relatos sobre relações incestuosas, o autor os classifica entre histórias de tragédias (em que se atribui ao incesto na família, inclusive, uma série de outros males), desejos e dúvidas (em que se tem uma dose de culpa e incompreensão daquele desejo) e leveza (em que esse desejo é visto com alguma tranquilidade e até mesmo efetivado). O curioso é que a leveza, nos seus dados, só se manifestou nas relações que aconteceram entre homens, entre irmãos ou pai e filho. Segundo o autor, nesses casos, há uma negociação íntima com o próprio desejo por homens e as suas possibilidade de efetivação que acaba por relativizar também o desejo em família.

Agora, pensando no filme, aparece lá também o desejo entre irmãos e a possibilidade de sua efetivação. Não sei como a história termina, mas torço para que não seja em tragédia. Outro dia, assisti a um filme argentino em que a história entre irmão e irmã termina na mais pura tragédia. Assisti e não gostei, diga-se de passagem. A questão é que agora essas referências colocaram uma pulguinha atrás da minha orelha: será que há algo que faz com que entre homens seja diferente o trato com as relações em família? Será que esse desejo é "efetivado" no gosto por homens mais velhos no decorrer da vida? Quais serão as possibilidades de se viver essas histórias?

E claro: o começo do filme parece que a gente já sabe. E o fim?

Aqui, a entrevista de Carlos Figari sobre seu artigo.


p.s.: na imagem, o cartaz que ficou como oficial para o filme. Gostava mais do outro, mas enfim...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A MOÇA DA UNIBAN E O AVESSO DO DESEJO


Filme de terror o que aconteceu com a garota da Uniban de São Bernardo do Campo, que foi à aula com um vestido curto e acabou achacada por uma turba enlouquecida de alunos e alunas. Li ontem a reportagem mais esclarecedora sobre o caso na Folha de S. Paulo. Infelizmente, só para assinantes, mas não quero reproduzir aqui. Um pouco de preguiça.

É difícil entender o que faz centenas de alunos se juntarem para intimidar uma moça de 20 anos. Assisti aos vídeos com minha senhoura que, bem observado, apontou que, quando a moça entra na sala para se esconder do bando, o grito que predomina é o de "gostosa". Depois, quando a moça sai escoltada pelos policiais, o grito de "gostosa" se transforma no de "puta". Pode ser que sejam só efeitos de gravação do vídeo, mas me pareceu que o bando oscilava entre a imagem da "gostosa" e da "puta". E como essas imagens se confundem!

O fato é que todos desejam a "gostosa", mas ela só serve pra ser "puta". Entre as duas, há um fino véu. E pobres das putas, que parecem servir de bode expiatório para tudo, principalmente para um bando de garotos que não sabem o que fazer com o seu desejo fora de lugar. E atrás deles um outro bando de mulheres que, talvez desejante do desejo dos garotos, tentava obrigar a moça a vestir uma calça e se juntava ao coro que agredia a "mina de vestido cor-de-rosa". Todos escolheram a pior hipótese para lidar com isso tudo: apontar uma culpada.

O que aconteceu na Uniban foi realmente um daqueles fenômenos coletivos de bando, em que as coisas vão ficando fora do controle. Me assusta o fato de que os seguranças tenham repreendido a moça, ao invés de zelar pela sua segurança; que o coordenador do curso tenha aparecido com um jaleco para que se cobrisse, e logo em seguida tenha ido embora; que outros professores tenham culpado a moça num meio sorriso de escárnio; que outras moças tenham invadido o banheiro para agredi-la e obrigá-la a vestir uma calça. Não foi acionado nenhum dos mecanismos que poderiam ter amenizado tudo e mais uma vez só houve uma única culpada: a moça.

Os estudantes estavam só tentando proteger a ordem e a moral num estabelecimento de ensino superior? Há-há-há, faz-me rir, e com acento. Era intimidando uma aluna e um punhado de colegas que "protegiam" os pilares da nossa sociedade, gravemente ameaçados por um vestido cor-de-rosa e um par de pernas. Gritando, se acotovelando, pulando uns em cima dos outros e cuspindo numa garota pretendeu-se "proteger" a moral. É assim que se agride a dignidade alheia e se cultiva violência há muito tempo: protegendo "a moral e os bons costumes" em atos caducos, que mal disfarçam o fio de saliva que escorre da boca diante daquilo que se acredita não ser possível desejar.

p.s.: ilustrando, a Venus Pudica (1913), de Egon Schiele.
 
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